À tardinha, quando começa a ficar frio e escuro, quando as viúvas põem-se de cócoras ao chão para acariciar os cães que solícitos e sós dão-se às carícias, e quando os carros passam apressados e ruidosos aqui em frente, em direção à casa, à noite, pouco importa. Quando está tudo convertido em pó, quando as coisas recebem uma dose mortal de agitação, quando tudo, depois de agitado, dá a impressão de que convergirá ao nada: do silêncio à cidade vazia e muda. À tardinha. Quando posso sentir o cheiro da noite e abro até as janelas e as cortinas pois que a luz não mais vem me perturbar, quando a sombra desliza leve. A sombra das flores cá do lado, da casa cá atrás, das árvores lá fora. À tardinha, quando quase aprecio o aspecto das coisas. À tardinha tua saliva tem gosto de livro. De livro velho, surrado e poeirento; livro do jeito que gosto. Com cheiro de uso, de trilhões de leituras, de traças corrosivas. Livro de páginas amareladas, lido, bem lido, digerido, vomitado. Páginas com gosto forte de literatura, com letras de máquina velha, com manchas escuras e orelhas bem dobradas. Edições antiquadas de 1940. Tua saliva, meu bem, com gosto de livro.
Quinta-feira, 28 de Maio de 2009
Sexta-feira, 8 de Maio de 2009
tarde. Uma tarde
Ser sensível e ser dor se aprende? Assim: é-se bom e alegre e decide-se ser triste; pode? Eu queria que os gritos além do portão fossem mudos, queria que não impusessem ruídos ao meu silêncio quase nunca interrompido. Ainda que essa casa seja de madeira, que seja dura, e que além desse quarto não exista perfeição. No fundo não me importo com a perfeição; importo-me com pouco, poucas coisas, em verdade. O pé adere ao chinelo macio e a maciez é frígida. Quero o oco, mas sólido. A solidez do puro; pode machucar que não me importo; admito, contudo, que os outros se importarão. E busco todo dia o jornal ali fora, vou a passos largos a fim de não atrasar-me pra coisa alguma. E às vezes tu estás aqui, e trago o jornal pra ti, pois que não me importo com ele, mesmo que isso pareça inconsistente-insustentável. E são bons meus passos, é bom tê-los e apalpá-los, qual se apalpa as palavras. E não quero me gabar, mas não é coisa que se aprenda assim, apalpar palavras. Começo a me perder, como se a perfectibilidade tivesse estado constante ou presente por algum segundo, um mísero só. Mas não esteve. Só há uns bons anos atrás, quando letras eram letras e só; conversamos hoje sobre isso, de modo calmo e entre risos. Só que me abre, cada palavra me abre, eu que nunca quis ser cortada, ter cada órgão analisado e tranformado em um relatório de autópsia/biópsia/necrópsia. Insiste em falar, concluir, e me tira de mim assim. Tiram as brochuras delas mesmas assim. Acabam com cada verso, com cada combinação tônica. Todos olham para nós, todos. E falo de todos, agora, todos são olhados. Estávamos sendo observados e nos pensam idealistas, eles que perderam a gana, os ideais, a febre. O ardor se foi e nós sentimos tudo, apreendemos por um quinquênio, creia-me. Apreendemos e queremos transmitir por satélite, por sinal digital, que fosse. Juro que queremos. Mas não essas ideias parcas, essas frases curtas que nada dizem a não ser ironia. E ironia constante é coisa de quem só critica porque machuca não ter sido nada além disso, além de um indivíduo pensante que sabe das coisas e não foge delas. Só que eu não pude suportar hoje, saí e andei em torno da quadra vizinha, rápida, rápida. Olhando extasiada, ébria, manchada para todos os lados, em cada canto dos confins desse bairro confluente. Que converge vagaroso pra dentro de mim, eu que quero fugir dele, que, falando a sério, quero andar quilômetros a cada dia para chegar a cada lugar ao qual pretendo ir.E dispenso ônibus ou compreensão. Quero só assentimento, quero pernas para andar, andar, andar. Quero ir e fazer confissões sinceras à pós-pós-modernismo com menos frequência do que tenho feito. Insanos, vocês. Nauseantes. Meu vômito, meu terror, meu pesadelo, meu olhar perdido no quarto escuro, minha vontade de erguer-me da cama na madrugada fria e sentar no piso gelado. Sentir a onda de inverno percorrer-me por inteiro, como se aquele fosse todo o inverno do mundo e possuí-lo dentro de meu corpo quente fosse o único sentido possível para esses dias de outono.
Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
perto
noite passada ele leu miller, mas já havia lido aquela página. roçou de leve uma mão na outra, como que para se certificar de que elas ainda estavam ali, ainda eram macias e boas de se tocar. o ar tinha uma cadência, o vento bipartido corroía seus poros, seu sangue purulento saía lento de uma ferida minúscula no dedo. a porta de vidro que dava para a varanda do apartamento estava escancarada, de modo que os alíseos tinham liberdade total, tocavam seu corpo coberto apenas por um calção escuro. reconheceu-se no que leu. antes, da primeira vez que lera, não era ele que ali estava, mas talvez apenas não tivesse prestado atenção, talvez as palavras não ecoassem direito, não se completassem. tinha um copo com café ao lado de si, na mesa de mogno comprada há dois dias. bebia de quando em quando, querendo que o amargo pintado de preto do líquido lhe tornasse mais duro, mais forte. percebeu que levara um tempo para digerir miller, que só se reconhecia agora pois que antes não sabia o que era. e havia também que lhe ensinaram a ler direito, ele que se julgava um bom dissecador de brochuras. lhe ensinaram e ele admitia tal coisa com gosto, com encanto. é que precisa-se pulsar junto com a página. a página é perfeita; sempre. isso é fato, aprenda. já as palavras são um ato; e digo que é preciso sê-las.
Terça-feira, 14 de Abril de 2009
A sujeira do chão, o jornal não lido, as toalhas penduradas com desleixo atrás da porta. Um eco, um sussurro, um passo. Um passo em falso, como todos os passos são. Cada objeto, cada insignificância. Eu dormia noite passada, acordei uma porção de vezes, mas dormia. Por um momento a pulsação de minhas veias se interrompeu. Assim: o peso do meu corpo sobre o braço. Precisei do outro braço, o esquerdo, para mover o que havia parado e que não queria mais movimento. Meu braço estava morto, lhe juro, criou coragem para o suicídio sem pedir se eu o autorizava ou não. Ele morreu, mas eu o revivi, pois que ele ainda é meu e tenho direitos, oras! Senti que ele revivia, que o sangue corria novamente, se espalhava rápido; pareciam facadas. Não me importei, era bom, quem dera eu sentir minhas veias assim, o tempo todo, quase como uma justificativa, um sinal de que se vive, que não são só meras imagens ou enquadramentos falsos e técnicos, pura e putridamente técnicos e teóricos.
Eu não quero, eu digo. Mas parei de me ouvir há um dia ou dois, parei porque eu de mim estou cansada, creia-me. Eu me repito, eu sei, minhas unhas e meus olhares se repetem. Olho sempre pra dentro, ainda que seja pra dentro de nosso vinho, para a garrafa vazia e triste, suja de tentáculos de uva velha. Ponto
.a rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido
Terça-feira, 24 de Março de 2009
a minha alucinação
Eu poderia simplesmente estender o braço e fazer com que minha mão recebesse o calor do sol. Poderia relatar como tem sido singela minha relação com os insetos que rondam a casa. Que tenho deixado os mosquitinhos pousarem em minhas mãos e braços, coexistindo pacificamente comigo. Quanto às formigas, que rondam meu pote de açúcar, apenas as observo, sem forças malignas suficientes para interferir na parca e sincera existência das pobres.
Mas nada disso me importa no instante preciso do agora, mesmo que me importasse ainda há poucos minutos atrás. Quero dizer que era noite e que eu tinha as mãos firmes em outras mãos, mãos ossudas e maiores do que as minhas. Nossas mãos se agarravam, como quem se prende a uma última esperança, um último suspiro que pode devolver a vida àquele que quase se esvai. Ambos concordávamos, enquanto nossas mãos confluíam infinitamente, que precisávamos do vinho para estarmos sóbrios, lúcidos por inteiro. Imagino que pode ser difícil o que digo e mesmo que doa nas almas, mas o fato é que andamos como ébrios, como bêbados cambaleantes , justo quando julgamos sobriedade. Os rostos sérios, os passos bem controlados, as conversas de esquina são de bêbados, de insanos que procuram respostas onde não as há, que procuram vida onde só há limites. Falo dos acomodados todos, pois que cada um tem sua porção de conformismo nisso tudo.
Enquanto andávamos e concordávamos, falávamos só sobre as verdades. Inteiras, compostas, simples.
Somos nascidos "into this". Nós e Bukowski, você e Bukowski, o cara que vende cigarros e Bukowski. Eu quero dizer e quero compreensão, pois que é difícil dizer, mas te juro, leitor, juro que é simples entender cada palavra. Porque, caso tu não saibas, a palavra é tua, ainda que quem a use agora seja eu. No instante em que a palavra ousa ser eu já sou e tu também já és, compreendes?
Eu não quero me estender, quero que os homens tenham paz, de si para si, tal qual a minha paz com as formiguinhas insistentes que espiam pelas bordas de meu açucareiro. Não é uma paz simbólica, um signo, uma insígnia. Não quero pombas como pano de fundo para minhas frases que quase se perdem, tamanha a ânsia que tenho de fazer-me entender. Gosto da ânsia, da insatisfação. Quero um pensamento, mas penses logo, que eu quase não arrisco querer.
"Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar/
E a solidão das pessoas dessas capitais/
A violência da noite, o movimento do tráfego/
Um rapaz delicado e alegre que canta e requebra, é demais/
Cravos, espinhas no rosto, Rock, Hot Dog, 'play it cool, Baby'/
Doze Jovens Coloridos, dois Policiais/
Cumprindo o seu maldito dever e defendendo o seu amor e nossa vida"
Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009
Mas vejo-os
e bem sei que me vêem
Insana, inanimada
remexendo numa xícara
pondo açúcar no café,
Sabendo que não é
e tendo a impressão de ser-se
Ainda que existir ou não seja
indiferente
ainda que a fome, a bílis e a dor sejam efêmeras e suportáveis.
Percorrem os dias
as Marias e Joãos de visão nublada
Cegos
repletos de angústia que apenas eu vejo
Os pobres nem angústia sentem
ou apenas não saibam nomeá-la
Tenho a impressão de que todos gritam
ou deveriam gritar
Não seriam gritos ensurdecedores, nem ao menos fariam um ínfimo som
Seriam gritos mudos,
pois que muda é a vida
Vivemo-la e ela não fala, não nos esclarece
Queremos saber das cores, dos sons e dos dias
Quer o senhor da barbicha,
quer o velho que manca,
e quer também a moça magra e sorridente que conversa ali no banco
Mas são silenciosos, os que querem
Creio que têm medo de querer
Pois que querer machuca, dizem eles
E é mais simples fingir, silenciar,
Sorrir, saudar, gesticular, simular, interpretar.
Eles gostam dos verbos,
eu sei,
mas não sabem conjugá-los.
Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008
compaixão. ou falta de
Houve um tempo, repetiu, em que as músicas e frases alheias ecoavam o dia todo na minha mente, era impossível que eu escrevesse coisa alguma que tivesse um aspecto realmente original.Acontece, o outro disse.Esse último não queria estender aquela conversa, torná-la íntima demais, compassiva demais. Andava cheio de suas próprias coisas, encoleirizado por seus pensamentos e indiferente ao que se passava com quem quer que fosse. Queria sair, buscava ficar livre de pensar apenas em si, desejava passar a se importar com a infantilidade dos conceitos dos outros. Queria mudá-los, fazê-los ver as coisas sem disputas de egos, sem visões esmaecidas pelo que já foi dito ou provado pela lei dos homens. Não que realmente achasse que haviam os homens criado leis que estabelessem um preconceito inato, uma covardia de nascença. Pensava que era uma espécie de constituição consuetudinária e inconsciente, que só a uns poucos é dado o direito de identificar.
Ainda que fosse um dos raros, um dos loucos, ele nada fazia. Desejava, de toda alma mesmo, fazer, mas não movia-se, não estendia uma mão, não ajudava ninguém a concatenar pensamentos com maior clareza do que os seres habitualmente fazem. Existia então apenas para si, não lutava: nem contra si e menos ainda contra o conforto dos outros.A aparência de todos não era, afinal, tão ruim. Ao menos eles próprios não enxergavam o que houvesse de pobre, de dor ou de ignorância em si. Possuiam suas televisões, seus sorrisos fáceis, sua missa aos domingos, suas roupas novas, sua forma singela de vislumbrar as próprias existências. Singela não: de dar pena. Assim era: enquanto tentava incutir-se sorrateiramente e afeiçoar-se aos objetos e sentimentos que eram consumidos, ele sentia náuseas. Tudo o que podia desejar era conseguir dizer tudo isso de forma nua, objetiva. Almejava a compreensão, a clareza. Precisava que as pessoas sorrissem, é claro. Contudo, não do modo como fazem hoje, não por hipocrisia. Sorrisos feitos de verdade, ele dizia; dentes tortos de pureza, de entendimento. Sinto tanto em dizer que era pútrido tudo o que o rodeava. Era pútrido e ele não queria admitir, não concordava em dizer em alto e bom som que era sujo, que era errado. Mas o sabia. E saber, apesar de ser grande - muito grande - não é nada se não estiver aliado a outro verbo, a outro ato. Era isso; e devia também admitir que sentia medo, que quase preferia manter os olhos fechados e todos os seus sentidos inertes para não ter que sentir o quanto as coisas eram secas; e cruéis; e de forma alguma sinceras._________________________________
"as contas do rosário balançarão/as nuvens nublarão/e o assassino degolará a criança/como se desse uma mordida numa casquinha de sorvete/demais/tão pouco/tão gordo/tão magro/ou ninguém (...) enquanto isso eu olho para as jovens garotas/talos/flores do acaso./tem que haver um caminho./com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda/não pensamos."
Charles Bukowski
Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008
Sobre como as palavras não tem dono nem fazem distinção
O olhar é bom. E se não serve de consolo, que sirva apenas para se olhar. Assim mesmo, um olhar olhando o outro; de modo atemporal. Era nisso que pensava ao atravessar a rua. Vestia roupas grossas pois que ventava muito e era inverno. Trazia na mochila uma caneta, um livro velho de sonetos, um bloco pequeno para anotações, o uniforme de trabalho e uma cartela de comprimidos para as dores de cabeça da mulher. Tomou cuidado, ao atravessar, para que o papel que trazia nas mãos não voasse devido ao vento aliado aos seus passos rápidos e ao movimento eventual dos carros. O que tinha entre os dedos era um poema, gravado em uma folha que arrancara da tal brochura que trazia na mochila. O livro não era dele e logo teria que devolvê-lo, estava apenas o transportando para um amigo, por isso achou por bem que era justo que a página com palavras bonitas fosse tomada para si, como se o poema estivesse a ele destinado desde os mais primevos tempos. Na realidade, os versos não eram grande coisa, prova disso é que tinham rimas demais, mas não rimas das boas como mundo e Raimundo. Eram rimas dessas mais bestas, sem grande carga e com sentido óbvio demais; estavam ali apenas para rimar: mais nada. Não perco meu tempo explicando mais acerca do poema. Digo só que ele falava do tempos passando, de um relógio, de alguns galhos balançando serenamente com o vento. Ele não lia muitos poemas, apenas eventualmente, quando um se-lhe aparecia assim à frente, sem pretensões. Contudo, desse ele gostou e gostou apenas porque não conhecia os realmente bons, os que tocam a alma de verdade e não apenas a rossam.
Sua alma não havia então sido perfurada, ainda que a ele lhe parecesse haver um turbilhão de sentimentos dentro de si. Com isso não digo que sua alma fosse rasa. Acontece que é preciso habituar-se aos sentimentos, pois que ainda que todos sejam igualmente humanos, apenas a alguns é dado sentí-los da maneira correta e inteira. Creio que muitos não se esforçam por tê-los em plenitude. Não havia nele o costume de encantar com coisas como arte ou beleza crua. Geralmente desprezava tais coisas, inclusive os poemas, sem a mais ínfima dó da métrica e nem mesmo das rimas. Mas agora estava voltando do trabalho e a poesia do poema era bonita. Voltava do trabalho, era sexta-feira e o poema havia o mudado, tornado-o sensível, aberto trilhas para outros poemas.
A mulher o esperava em casa. Achou que ela gostaria dos versos, acreditava que era dessas coisas que as mulheres gostavam. Resolveu que o leria para ela, dizendo que achou bonito, mas sem deixar muito explícito o que as rimas haviam feito por ele, para o caso de ela não se afeiçoar muito dos versos.
Em casa, a mulher - Valquíria era seu nome - gostou e disse-lhe que procurasse mais desses, já que era tão, mas tão bom que fazia o coração até palpitar. Ele disse que sim, tentaria encontrar mais como aquele. Falou também que estava satisfeito que a ela lhe tivesse sido válida a leitura, como ele já imaginava que seria. Sentaram-se então os dois à mesa, que estava posta ainda antes de o poema ser lido, e comeram calados, como que para apreender dentro de si as palavras todas, absorvendo e degustando com calma todos os sentidos que elas podiam adquirir. Mais tarde, antes de dormir, deitados lado a lado, leram-o novamente, com um sorriso de temor nos rostos, com medo de que tivessem perdido uma ou outra interpretação entre uma ou outra entrelinha.
"Provo que grandeza é só desenvolvimento."
Walt Whitman
Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
"se chover, tomar chuva"
Uma dessas coisas que eu gostaria de toda a alma é que nós, estúpidos humanos, fossemos capazes de gritar com alguma freqüência, já que temos voz e nossas palavras tem algum significado, mesmo que confundamos seus conceitos vez ou outra. Temos voz melodiosa, sincronizada; voz de inimitável capacidade sonora. Além de tudo, ouvimos uns aos outros, ponderamos argumentos, criticamos uma porção de coisas.
Sei bem que falo, assim, restringindo-me à minúscula e desimportante realidade que me cerca, contudo é-me inconcebível que saibamos gritar e não gritemos. Dona Lispector disse certa vez que há o direito ao grito, então ela gritava. E por que, diga-me, leitor, por que você ou eu não gritamos também? É coisa clara que temos lá muito o que dizer, uma porção de coisas a reivindicar, outras apenas a criticar sem oferecer boas soluções, outras ainda para comunicar, agradecer, declarar. Mas o fato é que não gritamos, ao menos não com toda a força do peito, ficando, depois do grito, sem voz e ardentes de paixão pelo nosso gesto. Considerando, entretanto, que poucas coisas são realizadas com real paixão aqui nesses confins, talvez seja melhor que não gritemos e que permaneçamos silenciosos ao invés de berrar ao léu, como quem existe sem viver, ou como quem come sem fome alguma.
Mas o silêncio constrangedor de quem não tem paixão pela própria força e pelas próprias possibilidades também é desses bem desprezíveis. O que nos falta é então a paixão. Exatamente aí se encontra nossa falta, nosso erro, nosso vazio. Somos carentes de real paixão, de real entrega. E agora não falo apenas sobre o grito, falo sobre o próprio viver, sobre a dor, sobre a verdade. Não entregamo-nos a nada de corpo e alma, como dizem os transeuntes. É importante, sabe, que haja a compreensão da imensidão humana, sem isso cercamo-nos de limites antiquados, pútridos. Pois bem: possuímos a voz, a capacidade para o grito, o constrangimento do tal silêncio e os ouvidos atentos para nos ouvir. A paixão é coisa que se conquista, não há necessidade que seja de imediato. É algo emergente para toda a humanidade, naturalmente, mas cada indivíduo tem sua própria cota de tempo para encontrar o que lhe falta. A paixão, a gana, tudo tem a ver com a liberdade, mesmo que tais coisas não se pareçam à primeira vista. Não há sentido em viver sem plenitude, ainda que seja plenitude de angústia ou de desgosto. A liberdade é difícil de ser encontrada e mesmo de ser definida. A beleza está, talvez, na indefinição da palavra; para que a tenhamos, é necessário que a sintamos, mesmo que não saibamos descrevê-la.
“– Oh! Essa gente razoável! – exclamei eu, sorrindo – Paixão! Embriaguez! Loucura! E vocês se conservam tão calmos, tão indiferentes, vocês, os homens da moral! Esmurram o bêbado, repelem o louco, cheios de asco, e passam adiante, como o sacrificador, agradecendo a Deus, como o fariseu, por não haver feito vocês iguais a um desses desgraçados!... Tenho-me embriagado mais de uma vez, as minhas paixões roçaram sempre pela loucura, e disso não me arrependo, porque só assim cheguei a compreender, numa certa medida, a razão por que, em todos os tempos, sempre foram tratados como ébrios e como loucos os homens extraordinários que realizaram grandes coisas, as coisas que pareciam impossíveis...”
“Os Sofrimentos do Jovem Werther” - Goethe
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